
Viver a mil à hora…
Há algo de magnífico nesta expressão! Adorava viver a mil à hora, imaginem aproveitar 1000 vezes mais a vida! Imaginem o que poderiam fazer 1000 vezes melhor, imaginem abraçar 1000 vezes mais, sorrir 1000 vezes mais, amar 1000 vezes mais?
Se vivesse a mil à hora ia visitar os meus pais todos os dias, ia dar um beijo de bom dia e boa noite aos meus avós e à minha afilhada, ia disparatar de 10 em 10 minutos com o meu irmão e ia sair mais vezes com os meus amigos!
Se vivesse a 1000 à hora daria a volta à terra em 40,076 horas, imaginam o que se poderia ver em pouco mais do que dia e meio? Mais de 90% do que a maior parte das pessoas do mundo vê, mais de 99,999% do que vi até agora e já lá vão 231000 horas de vida!
Respiraria 20000 vezes por minuto! Imaginem um bosque, um prado, a primavera, a brisa fresca inundar os pulmões com uma frescura rejuvenescedora com 1001 e um aromas florais, sentir aquela natural alegria milhares de vez por minuto dentro do peito, um verdadeiro devaneio dos sentidos!
Ou então chorar 1000 vezes mais, maior risco de desidratação, sofrer 1000 vezes mais, 1000 vezes mais vezes fechado no quarto a ouvir música, ia precisar de mais uns 34965 CD’s e uns 16983 livros? Estaríamos preparados para recuperar de dores tão fortes e repentinas, pois a mil à hora tudo é repentino. A mil à hora tudo seria mais efémero, a velocidade torna as coisas efémeras, terminas e inócuas!
Se vivesse a mil à hora, e fosse visitar os meus pais todos os dias ia sentir todos os dias a tristeza que sinto quando tenho de os deixar, ia sentir todos os dias que tinha perdido mais um dia da vida do meu irmão! Explicar todos os dias à minha afilhada que tinha de ir para longe para trabalhar…
Normalmente e de um modo estranhamente sobrenatural a natureza acaba sempre por encontrar um equilíbrio desmedidamente milimétrico para a aleatoriedade da vida! Deu-nos fragilidade à nascença, mas com uma capacidade cerebral única, deu-nos o mundo e todas as condições para prevalecermos sobre ele mas arrebatou-nos com uma natureza perversamente autodestrutiva.
A vida certamente seria melhor se pudéssemos multiplicar por mil tudo o que de bom temos e nos acontece e dividíssemos por essa mesma milena todas as tristezas, mágoas e angústias. Como tal não acontece, para o melhor e para o pior, vivemos a 4,5 km/h, por isso, o melhor mesmo é viver tudo a 100% pois nunca sabemos quando voltaremos a aproveitar as pequenas maravilhas, boas ou más, que a simples e efémera vida nos proporciona durante os 86400 segundos de cada dia.
Pobre, asseado e de volta!
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