Lembro-me de pensar que o mundo rodava da direita para a esquerda e não da esquerda para a direita. Lembro-me de pensar que a lua tinha aquela luz porque era bonita assim, que o sol era quente porque o calor sabia bem e a chuva molhada porque era divertida. Lembro-me de correr com o vento e de pensar, um pouco mais rápido, subo no ar e vôo. Lembro-me de pensar que no mundo só existiam boas pessoas e não me lembro de ninguém que fosse mau.
Lembro-me de jogar à bola na terra, sujar a roupa e estragar os sapatos comprados há uns dias. Lembro-me de acordar ao domingo às sete da manhã e ficar quentinho a ver macacada na televisão até me doerem os olhos e a cabeça. Lembro-me do pão quente que o meu pai ia buscar nesses dias. Lembro-me de quando caí dentro de casa e abri a cabeça. Lembro-me do meu triciclo e da minha primeira bicicleta. Lembro-me do meu primeiro dia de aulas e daquele leite escolar achocolatado, que de chocolate tinha muito pouco mas sabia tão bem...
Lembro-me de fazer inúmeros disparates, lembro-me de pensar uns tantos mais, não sabia nada do mundo nem do universo, era assim, era feliz.
Agora sei que o pai natal é o meu pai, ainda bem que assim o é, pois se, nos dias de hoje, desconhecidos nos entrem em casa é, muito provávelmente, para levar algo e não para deixar.
Também sei porque o mundo roda, forças gravitacionais. Sei porque a lua fica daquela cor à noite, poluição. A chuva já não é molhada, é ácida. E o sol aquece cada vez mais por causa do efeito de estufa e do enfraquecimento da camada do ozono. Sei também que por muito rápido que corra nunca me vou elevar mais que uns centímetros no ar, e vai ser um pouco antes de cair redondo no chão. E sei que o mundo não é, de todo, preenchido só por boas pessoas e isso entristece-me.
Já não acho graça aos desenhos animados, pelo menos para acordar às sete da manhã e agora sou míope. O pão quente, se o quero, tenho de o ir buscar. Tenho uma cicatriz marcada na testa. Parti o meu triciclo, estraguei a minha bicicleta.
Já não faço tantos disparates, nem tal me seria permitido agora, penso ainda muitos disparates, mas rio no momento seguinte porque sei que são devaneios. Sei mais da vida, do mundo e até do universo, sou assim...
O peso da vida tira-nos a inocência e o jeito fácil de sermos felizes, cada vez mais precisamos de mais e mais "coisas" para nos considerarmos verdadeiramente felizes. Temos isto mas falta-nos aquilo, e muitas das vezes para termos isto temos de abdicar daquilo, acabamos por ser mais infelizes contemplando o que não temos, do que felizes apreceando o que possuímos!
Tenho saudades do tempo em que o meu mundo começava no rebuçado que tinha no bolso e terminava no pacote de batatas fritas que tinha na mão... mas sou feliz!
Pobre, asseado e nostalgico.


